O Rito Francês – Algumas Notas Pessoais (Excerto)

Introdução

Esta Prancha é uma reflexão pessoal relativamente ao Rito no qual fui Iniciado, Passado e Exaltado e relativamente aquilo que eu apercebo como sendo um espírito próprio ao Rito Francês. Espírito que não é directamente transmitido pelos Rituais individualmente mas induzido por eles e pela sua prática. (…)

Um pouco de História

Em 1717 quatro Lojas londrinas decidem formar uma “Grande Loja de Londres” que, mais tarde (1751) viria a ser conhecida como “dos Modernos”. Esta “Grande Loja de Londres” é responsável, entre outras coisas, por um Ritual no qual trabalha e que tem algumas das características que ainda hoje reconhecemos ao Rito Francês como, por exemplo, a posição das colunas ou a bateria.

Entre 1720 e 1730, os Irmãos ingleses e escoceses que vivem ou visitam a França, levam a Maçonaria para o país de acolhimento e, ao criarem as suas Lojas, fazem-no recorrendo ao único Ritual que conheciam. Este ritual ficou conhecido por “dos Modernos”, adjectivo que ainda hoje se aplica ao Rito Francês ou Moderno.

Em 1773 a Grand Loge de France (criada em 1728) passa a chamar-se Grand Orient de France e introduz alguns conceitos revolucionários para a Maçonaria de então, como o fim dos Veneralatos ad vitam ou a tentativa de uniformidade das práticas rituais. Para esse fim (a uniformidade ritual) é nomeada uma comissão logo em 1773, e depois uma segunda em 1776, destinadas a definir o Ritual dos Graus Simbólicos. Esta comissão vê o êxito do seu trabalho com a aprovação de um Ritual de Aprendiz em 15 de Julho de 1785, logo seguido a 29 desse mês do Ritual de Companheiro, e do Ritual de Mestre, aprovado a 12 de Agosto. Destacou-se nesta comissão o nome de Roëttiers de Montaleau.

Alexandre-Louis Roëttiers de Montaleau (1748-1808) que na sua vida profissional profana teve vários cargos de relevância, nomeadamente Directeur de la Monnaie, entre 1791 e 1797, criou e dirigiu vários Lojas simbólicas e de aperfeiçoamento, tendo desempenhado diversos cargos na estrutura federativa do recém criado Grande Oriente de França, que dirige entre 1795 e 1804 com o titulo de Grande Venerável (na ausência de um Grão Mestre). Roëttiers de Montaleau para além de ser uma das grandes figuras do Grande Oriente de França, é igualmente a primeira grande figura do Rito Francês.

O trabalho das comissões demorou 12 anos e codificou uma prática ritualista que se vinha a esboçar desde 1740-1760 e prendeu-se muito com uma preocupação de sobriedade e de autenticidade. É depois desta data que se pode falar com conveniência de um Rito que é próprio ao G:.O:.D:.F:. e que é herdeiro do “Rito dos Modernos”. Rito que, a partir do inicio do século XIX passou a ser conhecido pelo nome de Rito Francês Moderno e que viu o prelo em 1801 com o “Régulateur du Maçon”. Este ritual será modificado duas vezes durante o século XIX, a primeira das quais por Murat que fez uma versão mais sintética.

Em 16 de Abril de 1886 surge aquela que é na minha opinião a mais importante versão do nosso Ritual, o Ritual dito “Amiable”. Esta versão deve o seu o nome ao Presidente da Comissão de doze membros que o redigiu, o Irmão Louis Amiable. Amiable (1837-1897), foi advogado, conselheiro da Cour d’Appel (Relação) e foi maire do 5º arrondissement parisiense (1888-1891). Escreveu em jornais ligados a Gambetta e a Clemenceau, t5rabalhou em Constantinopla onde foi Orador e depois Venerável da Loja “L’Union d’Orient”, Loja incontornável na Historia da Maçonaria turca e na modernização do Império Otomano. De regresso a Paris integrou a prestigiosa Loja “Isis-Monthyon” e fez parte do Conselho da Ordem. Como historiador da Nossa Augusta Ordem escreveu uma obra publicada postumamente sobre a Loja das 9 Irmãs a que pertenceu Benjamin Franklin.

É o “Ritual Amiable” que dá ao nosso Rito algumas das suas características que subsistem ainda hoje nomeadamente a codificação de cerimónias como a da instalação e, mais importante, o seu carácter positivista. A comissão presidida por Amiable expurgou os Rituais de referencias religiosas, de acrescentos oriundos do Compagnonnage e procedeu à substituição de partes das cerimonias por longos discursos explicativos doutrinários. Refira-se que a revisão Amiable vem na sequencia directa do Convent de 1877 e da emenda à Constituição proposta pelo Pastor Desmonds.

Em 1955 surge o Ritual dito “Groussier” que, apesar de revisões nos anos setenta e em 2003, representa na essência o actual Ritual de Referencia do Rito Francês. Arthur Groussier (1863-1957) foi engenheiro, sindicalista e politico. Pertenceu à Federação Nacional dos Operários Metalúrgicos (precursora da CGT), socialista radical, foi deputado pela circunscrição do 10º arrondissement de Paris e desempenhou vários cargos públicos. A sua principal preocupação em politica foi o Código do Trabalho. Em 1924 abandonou a politica activa e passou a dedicar o seu tempo exclusivamente à Maçonaria onde tinha sido iniciado com 22 anos. Tento entrado para o Conselho da Ordem do Grande Oriente de França em 1907, foi Grão Mestre de 1925 a 1945 (excluindo o interregno da Ocupação em que foi preso pela Gestapo). Foi também Soberano Grande Comendador do Rito Escocês Antigo e Aceite. Groussier durante o seu Grande Mestrado, impulsionou a revisão dos Rituais no sentido dum retorno às fontes simbólicas próprias do Rito Francês. Este esforço iniciou-se em 1938 e teve a sua versão definitiva em 1955.

Naturalmente que, ao longo dos anos, se foi assistindo à introdução do Rito Francês em Lojas de outras Obediências, como por exemplo em Portugal (geralmente aceite como em 1802) ou na Bélgica (1798). Esses ramos, ao afastarem-se a um dado momento do corpo simbólico e ritualista do Rito Francês do G.O.D.F. podem estar mais ou menos próximos daquela que é a sua forma de referencia. É por isso que temos hoje expressões ritualistas muito diversas que podem, de uma forma real ou não, reclamar-se do “Rito Francês”. No entanto e num saudável esforço de clarificação, todas as formas que se reclamam de uma Tradição/Realidade pré-Amiable (ou pré-Desmonds) adoptaram designações do tipo Rito Francês Restabelecido, ou de 1801, assumindo-se, muito correctamente, como sendo um Rito diferente.

Qual é o Ritual “correcto” do Rito Francês?

Quem já frequentou as várias Lojas do Rito Francês existentes no GOL, saberá que não existe uma uniformidade ritual no decorrer dos trabalhos. Ao fazer uma reflexão sobre o espírito do Rito não me posso cingir àquela que é a pratica ritualista da minha Loja, da minha Loja Mãe ou das Lojas cujo Ritual me é próximo ou conhecido.

Ao longo deste artigo, a expressão “Ritual do Rito Francês” refere-se aos Rituais de referência do Grande Oriente de França. Isto porque:

- O Rito Francês foi criado pelo Grande Oriente de França e ele é a origem última de todas as suas Patentes;
- O Rito Francês é o Rito praticado pela maioria dos Irmãos do Grande Oriente de França e a maioria dos Irmão que praticam o Rito Francês são do Grande Oriente de França;
- As nossas Lojas divergem todas um pouco do Ritual de referência promulgado pelo Conselho da Ordem do Grande Oriente de França. Cada uma a seu modo, mas todas estão mais ou menos à mesma distancia (se é que me posso expressar assim) do dito referencial.

É por estas 3 razões que penso que se justifica dizer que o Ritual do Grande Oriente de França é o máximo denominador comum de todas as praticas rituais que se reclamam do Rito Francês e, consequentemente, que ele encarna e enforma o seu espírito.

Adicionalmente acrescento que a maioria da reflexão sobre o Rito Francês veio de dentro da sua Obediência de origem. Mais recentemente alguma reflexão está a ser feita por outros – ressalvo alguns excelentes trabalhos nomadamente de Roger Giraud que foi Supremo Comendador do Grande Capítulo Francês (Grande Loja Nacional Francesa) ou de Irene Manguy que é Grande Bibliotecária do Grande Oriente de França. Mas esta reflexão recente está muito ligada ao acordar dos Graus Capitulares ou de Sabedoria e menos aos Graus Azuis ou Simbólicos, que são o objecto deste artigo. (…)

JXB

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