O grão-mestre do GOL aconselha a ministra da Justiça a “reponderar” a afirmação que fez sobre os maçons
Fernando Lima, grão-mestre do Grande Oriente Lusitano, tem mantido uma posição discreta durante a polémica que está a atingir duramente a maçonaria, mas aceitou dar uma entrevista ao i em que fala sobre o dia-a-dia da instituição, da loja Mozart e da possibilidade de se obrigar os maçons a assumir-se. Critica a ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, por ter defendido que os maçons que ocupam cargos públicos devem ser obrigados a dizê-lo publicamente e advoga que, em Portugal, ainda há um “forte preconceito” em relação à instituição.

Tem havido uma grande polémica sobre se os maçons devem ou não assumir-se. Qual é a opinião do grão-mestre do Grande Oriente Lusitano?
Permita-me que faça uma pequena introdução e até manifeste alguma perplexidade relativamente a toda esta discussão que tem havido ao longo das últimas semanas. A maçonaria é uma ordem iniciática, no sentido de ser uma ordem filosófica, é humanista, tem uma linguagem simbólica, aquilo a que eu gosto de chamar uma espiritualidade laica. As pessoas aperfeiçoam-se moralmente como escola de valores e agem na sociedade individualmente com uma cidadania muito activa e com ideais de que o colectivo deve prevalecer sobre o excesso de individualismo. Tudo isto são ideais conhecidos há séculos e daí alguma perplexidade, e parece que há algum desconhecimento sobre a maçonaria. Diz-se que é uma sociedade secreta, mas não há nenhum secretismo. É realmente esta escola de valores e não há nada a esconder.
Isso não é uma razão para que os maçons se assumam?
Não vejo razão nenhuma para que os maçons sejam obrigados a assumir-se. Aliás, a pedra-de-toque da maçonaria, do ponto de vista filosófico, é a inteira liberdade de consciência. Eu posso dizer que pratico uma determinada religião, que tenho determinadas crenças, mas não sou obrigado a vir declarar. Isso é uma porta aberta para que as sociedades democráticas abram brechas. Estou de acordo que os maçons se assumam se assim o entenderem, mas sou frontalmente contra a obrigatoriedade da declaração de ser maçom. Isso é inconstitucional e vai contra todas as convenções europeias.
A ideia de que é inconstitucional não é consensual. A ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, defendeu esta semana que os maçons que ocupam cargos públicos devem ser obrigados a declarar que pertencem à organização.
Compreendo que existam algumas posições divergentes, mas não as posso aceitar, porque não são jurídicas. Aliás, a ministra da Justiça – exactamente por ser a ministra da Justiça e é jurista, naturalmente – tem algumas responsabilidades particulares nesta matéria. Julgo que deveria reponderar um pouco o tipo de afirmação que fez, dado os preceitos jurídicos que enunciei: a Constituição, as convenções europeias e a declaração dos direitos do homem. Um jurista atento deveria interpretar e reflectir um pouco mais sobre essa matéria e, nomeadamente, a ministra da Justiça deveria reponderar essa afirmação.
Se aparecer um projecto para obrigar os maçons a declarar que pertencem à organização, o que é que o Grande Oriente Lusitano fará?
Depende do tipo de projecto, mas já expressámos a opinião de que um projecto nesse sentido não tem cabimento num estado democrático, e naturalmente que nos insurgiremos. Depende das coisas em concreto.
Ficou surpreendido com o facto de haver tantos políticos a defender essa hipótese?
Fiquei, mas há uma pressão dos acontecimentos que levaram a uma menor ponderação.
O que é que leva a que haja ainda maçons que não se queiram assumir quando vivemos em democracia? Têm ainda receio de serem discriminados?
Infelizmente, a maçonaria, em Portugal, ainda é vista de uma forma autoritarista. É preciso dizer-se que a maçonaria tem cerca de cinco milhões de membros em todo o mundo. Se formos para os países das grandes liberdades – as monarquias nórdicas, os Estados Unidos da América, entre outras –, é qualquer coisa que é clara e assumida. Mas as ditaduras nunca gostaram da maçonaria e o facto de termos tido uma ditadura em Portugal faz com que o inconsciente colectivo da nossa sociedade ainda não tenha ultrapassado esta visão da maçonaria como uma sociedade secreta – já não digo a abater –, mas agora com o argumento de que não faz sentido numa sociedade transparente. Ainda há um preconceito muito forte na sociedade portuguesa. E muita gente tem alguns incómodos, porque pensa que poderá vir a ser prejudicada.
E tem razão de ser esse receio de alguns maçons?
Esta análise é um pouco uma análise sociológica da realidade. Não há razão nenhuma para as pessoas não se assumirem. Nós somos é contra a obrigatoriedade. É uma honra ser maçon e as pessoas devem assumir-se. Mas há ainda um preconceito na sociedade portuguesa que as pessoas mais esclarecidas já deviam ter ultrapassado.
Um preconceito a que nível?
A todos os níveis. A nível político, económico, social e a nível até das próprias pessoas em geral.
A maioria dos maçons não se assume?
Eu julgo que ninguém anda nas ruas a dizer que pertence a esta ou àquela organização. Nós cultivamos valores e não temos de andar aí a apregoar.
Quantos maçons existem em Portugal?
Em Portugal há várias obediências e diz–se que há cerca de quatro mil maçons activos. Quando estamos a falar neste caso concreto da política, estamos a falar de minorias, não estamos a falar da generalidade dos maçons.
Como é que se entra para a maçonaria? É a convite?
Normalmente, é a convite. A maçonaria não é uma elite económica nem uma elite de interesses, mas é uma elite no sentido dos critérios de entrada. É para homens livres e de bons costumes. É uma malha, não diria apertada, mas uma malha criteriosa.
Quais são os critérios para entrar?
São homens livres, de bons costumes, sem passado criminal, que não tenham ideias fundamentalistas. A maçonaria é um espaço de tolerância.
Ao longo da história, os critérios de entrada para a maçonaria foram-se alterando ou permanecem intactos?
Os critérios são sempre os mesmos. São homens livres e de bons costumes. A maçonaria do século XIX não é a mesma do século XX ou do século XXI, mas há certos princípios básicos estruturantes que são os mesmos. Mas são esses homens livres e de bons costumes que, às vezes, as sociedades não toleram, porque as sociedades também querem ter controlo social. Aliás, a maçonaria também serve de bode expiatório em períodos de conturbações sociais. A história demonstra que, ao longo do tempo, quando há perturbações sociais a maçonaria serve de bode expiatório.
É o que está a acontecer?
Não sei o que está a acontecer agora, mas sei que a maçonaria é uma instituição respeitável. É preciso relembrar que o Tratado de Lisboa reconhece organizações como a maçonaria. Eu fui recebido pelo presidente da Comissão Europeia, pelo presidente do Conselho Europeu e pelo presidente do Parlamento Europeu há cerca de dois meses. A maior organização maçónica do mundo, que agrega, se a memória não me falha, 40 países, faz parte como organização não governamental do Conselho Económico e Social da ONU (Organização das Nações Unidas). É uma instituição reconhecida em todo o mundo.
Isso não garante que não haja entre os maçons comportamentos menos transparentes e condenáveis…
Como em todo o lado e em todas as instituições, mas são sempre uma minoria. Quando isso acontece, ou se auto-excluem ou são excluídos, porque nós também temos na maçonaria processos internos de inquérito, de apreciação disciplinar, dentro dos princípios democráticos, para o caso de haver comportamentos desse tipo.
Quantos maçons já foram expulsos devido a esses comportamentos?
Eu só posso falar pelo Grande Oriente Lusitano mas, desde que sou maçom, muito poucos.
Mas não sabe quantos?
É uma minoria. A maior parte dos maçons que saem é ou por algum desinteresse – nem sempre as pessoas acertam neste tipo de espiritualidade – ou porque deixam de pagar a quota e há um regulamento interno que diz que, quando não pagam, também têm de se ir embora. Nesses casos, também já não têm interesse. Mas em termos disciplinares, conheço muito poucos casos.
Como é que tem visto a polémica à volta da loja Mozart – da maçonaria regular – em que há a suspeita de ligações pouco transparentes entre a maçonaria, as secretas e o poder económico e político?
Eu tenho de ver sempre esses casos como democrata que sou e até como jurista que sou. Para mim as pessoas são sempre inocentes até prova em contrário. Mas se um dia se vier a provar que esse tipo de comportamentos existiu, temos de distinguir a maçonaria do comportamento de algumas pessoas.
As suspeitas é que esta loja foi utilizada por alguns maçons para estabelecer ligações entre o poder político e económico e as secretas. Mesmo o relatório do PSD fala num conluio de poder que envolve a maçonaria. Não é grave?
Não utilizaram a maçonaria, nem acredito que dentro de uma loja maçónica as pessoas se sentassem e estivessem a combinar coisas dessas. Não conheço este caso concreto, nem conheço a loja Mozart, nem é do GOL, mas custa-me a acreditar que dentro de um espaço maçónico as pessoas estejam a conspirar…
Houve já o caso da Universidade Moderna. Todos estes casos acabam por dar uma má imagem da maçonaria, ou não?
As pessoas não foram condenadas por serem maçons. Foram condenadas por terem comportamentos ilícitos. Por acaso eram maçons, como podiam ser católicos, judeus ou muçulmanos. Não foi por serem maçons que praticaram esses actos ilícitos e isso é qualquer coisa que nos deixa perplexos, porque condena-se uma instituição na sua totalidade. Ninguém condena a instituição católica por terem encontrado dois ou três padres pedófilos lá dentro. É preciso dizer as coisas como elas são. Não é por ter lá dois ou três padres pedófilos que nós condenamos a Igreja Católica. Como não condenamos o islão pelo facto de ter islamitas que metem bombas, que é um acto altamente condenável, mas se estudarmos bem o Corão não vamos condenar mais de mil milhões de muçulmanos pelo facto de haver uns tantos terroristas. E, portanto, não vamos condenar a maçonaria pelo facto de haver comportamentos ilícitos.
Mas voltando à questão da loja Mozart. Foi o próprio José Manuel Anes, que foi grão-mestre, que acusou o ex-director do SIED Jorge Silva Carvalho de ter utilizado a maçonaria para um projecto de conquista de poder…
Ele lá sabe. Ele é que estava lá dentro.
O Grande Oriente Lusitano é mais rigoroso?
Não quero fazer juízos de valor. O que lhe digo é que aqui dentro, essas coisas, a ser verdade o que ele diz, não acontecem.
Há mecanismos para prevenir determinados comportamentos?
Há. Temos alguma disciplina e alguma atenção àquilo que se passa com o objectivo de saber se os nossos princípios são cumpridos ou não. E, nessa medida, temos inspecções às lojas. Os inspectores que são nomeados para as lojas vão verificar se as lojas funcionam de acordo com aqueles princípios. Há uma atenção àquilo que se passa sem interferência na autonomia das lojas.
Assistem às reuniões?
Fazem uma visita regular e verificam se o que se está ali a fazer é ritual e discussão.
O que é que discutem?
O que se discute em loja são assuntos da sociedade, são assuntos morais, filosóficos. Discutem-se, por exemplo, problemas sobre a preservação ou não de células estaminais, sobre as neurociências, sobre questões sociais. Não se discute política partidária, mas discute-se a ética, a moral, a corrupção…
Um tema como o Orçamento do Estado ou as medidas de austeridade não tem lugar numa dessas reuniões?
Não. A maçonaria não actua colectivamente. É uma escola de valores. Aqui não se discutem nem interesses, nem negócios. Aliás, um dos trabalhos que estamos a fazer é recolher os trabalhos que cada maçom faz nestas suas análises e publicá-los, para que as pessoas vejam o que se faz aqui dentro.
Encontra alguma razão para haver esta desconfiança à volta da maçonaria e não se falar, por exemplo, do secretismo da Opus Dei?
Não sei. Se calhar é mais fácil. É um fantasma mais fácil de explorar, porque se calhar é mais aberta e há mais maçons assumidos. Não sei.
Há uns meses surgiram notícias de que os maçons se tentaram unir para eleger Fernando Nobre como presidente da Assembleia da República. Seria legítimo que os maçons se unissem para ajudarem à eleição de um presidente do parlamento ou para um outro cargo político?
Como maçons, não. Os maçons não telefonam uns aos outros a dizer: “Faz assim.” Se fazem isso é ilegítimo, mas isso não é verdade. Aliás, o Dr. Fernando Nobre veio assumir que era maçom…
Assumiu, mas disse que já não frequentava a maçonaria. Luís Montenegro também assumiu, mas também fez questão de frisar que não tem nenhuma actividade. Não é uma forma envergonhada de assumir?
Ele lá saberá. Eu estou com o António Arnaut, que já disse várias vezes que é uma honra ser maçom. Estou é contra a obrigatoriedade.
Uma ideia que existe é que os maçons se ajudam uns aos outros. Em que casos é que isso é válido?
Naturalmente que a vida é feita do olhar do outro e sem os outros nós não vivemos. As pessoas criam relações de amizade e de afectividade, e é natural que os maçons vivam essa relação de afectividade. E, portanto, quando eu tenho um irmão doente, quando eu tenho um irmão que se divorciou e precisa de um abraço, quando eu tenho um irmão que me telefona e tem alguma aflição, naturalmente que temos esta afectividade e esta maneira de estar na vida, como certamente acontece em outras instituições. É preciso dizer que este sentido de afectividade não é um sentido perverso. O que é perverso é dizer que isto se transforma em tráfico de influência na sociedade. Não é verdade. Poderá haver um ou outro – não vamos dizer que aqui é tudo santo – mas, se o fizerem, estão mal.
Se um maçom não conseguir, por exemplo, arranjar emprego, é legítimo que outro maçom o ajude a encontrar um lugar?
Pode um amigo perguntar se sabe de alguma coisa, mas não é tráfico de influências. Se alguém estiver aflito e perguntar se eu conheço algum lugar, são questões de entreajuda que não têm nada de perverso. É distinto da ideia feita que é tráfico de influências…
Os maçons juram fraternidade. É natural que haja alguma desconfiança, ou não?
A primeira coisa que juram é respeitar a Constituição e as leis da República.
Já se colocou também a questão se um juiz que é maçom deve julgar outro maçom, e há quem ache que os magistrados deviam declarar essa filiação. Não acha que é um caso delicado?
Respeito a opinião, mas pode acontecer com os maçons como com qualquer outra pessoa. Ontem ouvi na televisão dizer o seguinte: um juiz do Sporting, se for julgar alguém da claque do Porto, é isento? Tem de o ser. A questão não está em ser maçom, está em ser sempre um homem isento, independentemente do que seja na vida privada.
A maçonaria tem pessoas de todas as ideologias políticas?
Se tirar os fundamentalismos, quer à esquerda quer à direita, há alguém que não defenda a liberdade? Há alguém que não defenda uma sociedade mais justa? E devo dizer–lhe que a maçonaria incorpora muitos valores cristãos. A maçonaria é uma espiritualidade própria do Ocidente.
É correcta a ideia de que a maçonaria tem pessoas de todos os partidos com excepção do PCP?
Que eu saiba, nós aqui não perguntamos a cor partidária de ninguém, nem isso é critério de entrada. Sabemos que é transversal. Tem gente de todos os partidos, todas as crenças…
Menos do PCP.
Isso não sei. Suponho que há alguns comunistas que farão parte da maçonaria, mas isso é indiferente. Só não cabem dentro da maçonaria os extremismos, porque é uma escola de tolerância.
Falo no PCP porque o partido, pelo que se sabe, não deixa entrar os seus militantes para a maçonaria.
Sim, os maçons foram sempre perseguidos em todos os regimes comunistas. Mas nós não fazemos juízos sobre a cor partidária. Eu não sei se há membros do Partido Comunista, nem sei se há militantes, agora, um comunista pode haver. Eu nunca vi uma lista dos membros do PCP, nem dos filiados do PS ou do CDS. Porque é que os partidos não metem cá fora as listas integrais dos seus membros, dos seus filiados? Eu não sei se há membros do PCP, mas que tenho debates com gente que se diz comunista tenho, mas não sei se são membros. Quem diz comunistas diz do Bloco de Esquerda ou do CDS…
Embora o Grande Oriente Lusitano esteja associado ao PS?
Não é verdade. A sensibilidade que eu tenho é que o Grande Oriente Lusitano é transversal partidariamente. Já houve, de facto, essa ideia de que era maioritariamente socialista, mas eu julgo que essa ideia hoje é errada. A sensibilidade que eu tenho é que é transversal.
Como é que tem visto aparecerem na imprensa os nomes de alguns maçons?
É uma espécie de caça ao maçom sem sentido nenhum. Fico perplexo e acho que há desinformação, e remeto para as avisadas palavras do Cardeal Patriarca de Lisboa [D. José Policarpo] nesta matéria. Ele diz que os maçons não devem ser obrigados a assumir-se e manifesta também alguma perplexidade com esta discussão. Eu diria que foram palavras avisadas do senhor cardeal.
Como é o dia-a-dia do grão-mestre da maçonaria?
Como o de qualquer outra pessoa. Tenho uma profissão, venho aqui todos os dias, convivo com os meus irmãos, faço visitas às lojas, participo em debates.
O palácio recebe muitas pessoas de fora?
Sim, o nosso museu, por exemplo, é visitado por escolas, por reformados. Qualquer pessoa pode visitar sem problema nenhum.
O grão-mestre tem algum salário?
Não. Ninguém tem salários na maçonaria. Isto é uma dedicação a uma causa. A não ser os funcionários da secretaria e os porteiros.
Mas pagam quotas?
Sim, como em qualquer associação. Essas quotas é que suportam as pequenas despesas que temos.
E já foram expulsos alguns maçons por não as pagarem.
É evidente. Faz-se todo o possível para que as regularizem, mas se não o fizerem não temos outra solução.
Entrevista publicada em 14 de janeiro de 2012 no jornal i, conduzida por Luís Claro com fotografia de Rodrigo Cabrita
14 de January de 2012 20:30
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