Raul Solnado, nosso irmão
Se estivesse entre nós, Raul Solnado comemoraria hoje, 19 de Outubro de 2009, 80 anos de uma vida plena. Infelizmente este nosso irmão passou ao Oriente Eterno em 8 de Agosto, há pouco mais de dois meses.
Como na altura disse António Reis, Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa, Solnado era “um obreiro ilustre”, realçando a sua grande humanidade.
Por proposta de dois honrados Irmãos, um dos quais era Fernando Curado Ribeiro, Solnado foi iniciado no princípio dos anos 90 na Respeitável Loja “Igualdade e Justiça”, a Oriente de Lisboa, sob o precioso malhete do Venerável Carlos Andrade.
A “Igualdade e Justiça” era ao tempo reconhecida no Grande Oriente Lusitano como a “Loja dos Actores”, já que nela tomavam assento grandes figuras do Teatro português, como o próprio Curado Ribeiro, Raul e Carlos César, entre diversos artistas e dramaturgos ainda felizmente sobrevivos, além de outros ilustres Maçons como Abílio Mendes ou Carlos Fabião, mas abateria Colunas uns anos mais tarde.
Raul Solnado, depois de Novembro de 1996, em breve circunstância, regressou a trabalhos no seio da Respeitável Loja “Do Castelo”, apesar de se manter sempre em constante convívio com os amigos e Irmãos, a quem reiteradamente dava provas do seu interesse pelas Instituições da Maçonaria. Raul adormeceria depois sem mais intervenção que não fosse a de nos honrar com a sua serena bonomia em diversas “festividades brancas”.
Em 2004, em entrevista à revista “Autores”, da SPA – Sociedade Portuguesa de Autores, instituição de que há décadas era cooperador destacado e defensor estrénuo, Raul Solnado considerou que “o actor cómico é um interventor no plano social, político e até na vida das pessoas que critica, e por isso não pode ter a unanimidade universal”.
Noutro passo, afirmou: “ Para mim tudo é risível mas imponho-me limites. Despejo a minha fúria sobre o pensamento monolítico, critico o que os políticos dizem e fazem, ridicularizo os tiques da sociedade, contextualizo as injustiças. Só poupo a democracia, é proibido atentar contra o regime democrático. Contra o Presidente da República, também não. Mal vão as coisas quando ele é criticável”.
Sobre os cómicos, opinou: “Eu sempre disse que os cómicos são tristes e sisudos porque têm mágoas profundas. Nós temos de ver o ridículo com uma lupa muito grande e isso magoa. É por esse lado que vemos mais longe”.
E quando o jornalista lhe perguntou como é que a crise que Portugal então vivia lhe batia à porta, respondeu sem hesitar:
“A mim, a crise económica não me afecta, porque nunca tive um projecto de fortuna, o meu projecto é de felicidade. É a tal paixão pela liberdade que sempre me acompanhou”.
Sobre a Casa do Artista, iniciativa de solidariedade que imaginou e abraçou, contou:
“É um projecto ao qual dedico grande parte do meu tempo. Agora sou o presidente da Direcção e por isso tenho de seguir de perto o seu dia-a-dia. Isto foi uma ideia que me assaltou desde os tempos do Brasil. Lá havia o Retiro do Artista, mas eu achava que a palavra “retiro” era muito forte e quando, em 1960, apresentei o projecto aos meus colegas, já foi como Casa do Artista. A ideia andou a germinar durante muitos anos e, um dia, o Armando Cortez decidiu pô-la em prática. Durante a direcção dele eu vinha aqui todos os dias ajudá-lo. Em quatro anos mobilámos estes 12 000 metros quadrados com coisas que nos foram oferecidas! Mas quando ele começou a ficar muito doente, pediu-me para eu assumir a direcção e cá estou”.
Solnado fez ainda questão de sublinhar que a Casa do Artista tinha apoios públicos e de particulares, mas acrescentou:
“Isto só por si não anda. A factura de gás e electricidade é superior a mil e quinhentos contos por mês. As reformas dos 73 utentes são muito baixas, temos que encontrar apoios que, felizmente, não têm faltado. Ultimamente até temos doações de particulares em dinheiro e propriedades”.
Era assim Solnado, um homem de um só rosto mas um actor de mil faces – que com gargalhadas se impôs como uma figura mítica do espectáculo. E quando a guerra colonial era sagrada e indiscutível, ele pôs Portugal a rir-se de uma guerra sem sentido, uma rábula que foi o seu maior êxito de sempre. E não foram poucos os seus êxitos.
1 Comentário Escreva também!
1. Odete Figueiredo | 20 de Outubro de 2009 at 16:00
Raul Solnado foi sem dúvida um dos grandes humoristas do nosso tempo. Raul sabia fazer humor sem ser brejeiro,sabia ter graça sem ser grosseiro.O seu humor,era um humor inteligente que conseguia arrancar gargalhadas desde que entrava em palco até ao final do espectaculo. Muitos humoristas ou pseudo humoristas têm aparecido mas nenhum que se compare ao Raul Solnado.Ele ficará para sempre na memória daqueles que cresceram a ouvir as suas histórias absolutamente deliciosas.
Escreva o seu comentário
NOTA: A discussão e uso dos comentários são encorajados e esperados. Contudo, a moderação dos comentários é também necessária, por forma a prevenir a proliferação de SPAM (publicidade), ataques pessoais, uso de impropérios, conteúdos de índole pessoal que os tornem impróprios para publicação ou mesmo comentários que não estejam directamente relacionados com o tema proposto. Todos os comentários serão previamente filtrados, antes de publicação, sendo mantido o seu conteúdo, sempre que editados.
Trackback | Subscrever feed de RSS para os comentários